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Apologia do pulmão cheio

por scarlett black, em 28.01.18

Tudo se perdeu na vertigem. Quando saímos da montanha russa, caímos em nós em náuseas, recordados de que o chão é de pedra dura e de que até os ossos nos pesam.

Entretanto, aprendi a respirar. Respiro nos dias longos em que o café não chega, e quando chove no caminho para o carro, e se por fortuito acaso me incandeia a luz do sol reflectida no rio. Respiro até que passe a náusea, e ela passa, tão certo como o passar do tempo e das águas do rio.

No fundo, nada mudou. Continuo criança, por vezes afogada em solidão, e juro a pés juntos que o destino não existe, ainda que o busque em cada rosto que vejo passar. Mas respiro. Não me faço de convidada. Não espreito às janelas sem permissão. Bato à porta, se vir que a casa é habitada, e ofereço bolinhos e chá. Passeio junto ao rio, quando faz sol em mim, e escrevo para além da náusea.

Daquilo que se perdeu, faço inventários de memória, na esperança vã de reaver o que não é mais. Mas lá vou reunindo, como cacos, ecos daquilo que havia: uma casa segura, trancada a sete chaves, onde não se falava mentira; uma paixão assombrosa pelo milagre que é estar vivo e ver o mundo; e esta língua que, mesmo em negação, amei desde o primeiro momento em que cheguei ao mundo num grito.

E agora respiro. Por hoje, chega de gritar.

publicado às 00:26

A um irmão: M.

por scarlett black, em 30.09.15

É estranho como te quero bem sem quase saber o que seja de ti. Queria poder ensinar-te, mas em vez de isso partilho contigo o meu segredo, que é que eu tenho tanto ou tão pouco controlo sobre a minha vida quanto tu sobre a tua. Distraí-me a andar pela casa e quando voltei a olhar o chão, os meus pés estavam sujos de terra, e por entre os dedos espreitava o amarelo esmorecido da relva repisada e a perder a vida.

Não fui feita para todos estes olhares a cair sobre mim, nem quero que me digam o que pensam daquilo que faço comigo, mas se não o fizerem, como saberei eu voltar a casa? Estou perpetuamente dividida entre os meus instintos de ninfa ingénua e as prudentes cauções daqueles que me vão ocupando as mãos de cafés e cigarros e cervejas frescas sob a tarde que cai. Ainda ontem me quiseram censurar por omitir aquilo que é a minha alma; não sofrerás tu do mesmo mal? Não, não, que já vi que tens mãos que te amparam e lábios que te acalmam quando troveja no mundo e em ti também; já eu tenho terror a contar esta verdade que vai em mim, e conto a minha história com um vago ar de gracejo na esperança que ninguém me censure por ela.

Mas compreendo que os teus medos são outros, embora não possa adivinhar quais. Vem contar-mos e pousar a cabeça no meu ombro, para que eu possa ter a ilusão da intimidade que a mim mesma recuso teimosamente. Eu despejo-te os meus factos, factos, factos, e tu com esse teu olhar atento hás-de ser o único a ver a verdade em mim.

publicado às 23:15

Migrações.

por scarlett black, em 24.07.15

Tenho notado, nos últimos meses, que muitos daqueles que fui vendo passar por esta plataforma estão de regresso, uns mais declaradamente, outros num pequeno apontamento ou outro acerca do mundo lá fora. É bom ver palavras de gente sacudindo o pó ao cantinho de blogosfera em que me encontro. As aves também encontram sempre o caminho de volta a casa.

publicado às 23:42


a dita cuja

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